segunda-feira, outubro 03, 2005

DÁ PRA VIVER SEM?

Você consegue imaginar uma vida sem televisão? Fazer aquele trabalho da faculdade sem internet? Passar o dia sem aquela música que toca no rádio? Enfim, atualmente a mídia orienta a nossa vida e tudo isso é um fenômeno recente, alguns anos atrás ninguém tinha o hábito de ficar horas em frente à televisão e ao computador na internet.

Pesquisa realizada em junho deste ano pelo instituto NOP World com 30 países buscou levantar informações sobre cultura e mídia. Foram detectados ricos e importantes dados. O Brasil aparece em oitavo lugar no ranking de horas frente à televisão. São 18,4 horas semanais bem acima da média mundial, de 16,6. No caso do rádio o Brasil aparece em segundo lugar nessa lista, os brasileiros passam 17,2 horas, mais do que as oitos horas da média dos países. Na internet somos o 9º colocado com 10,5 horas. É na leitura que apanhamos feio, somos o 4º país que menos tempo dispende com a leitura com somente 5,2 horas. Quase quatro vezes menos que o tempo gasto com a televisão. Vale destacar que o fenômeno que ocorre é mundial. A leitura perde espaço para a televisão e para a internet. Somente 17% dos países pesquisados dedicam menos do que 2 horas por dia com a televisão. Para piorar o conteúdo de leitura vem sofrendo cada vez mais um processo de massificação no sentido de que as pessoas estão lendo os mesmos livros ou conteúdo semelhante. No pouco tempo gasto com leitura geralmente é dedicada a livros-febre como Código Da Vinci e O Monge e o Executivo.


Perante o que foi apresentado até este ponto o que se tem a destacar é o quarto poder. A força da mídia, do seu poder de influência sobre a sociedade e seus fatos, o poder da informação como ela é apresentada. De acordo com o que foi mencionado acima não conseguimos viver mais sem ela, são mais de dois dias por semana gastas com as mídias.

No Brasil a mídia pode ser resumida em duas palavras: Rede Globo. Ela concentra a grande maioria dos telespectadores e receitas de mídia no Brasil. O jornal dos brasileiros é o Jornal Nacional, independente de opiniões. O poder exercido por essa empresa é monstruoso sendo considerada internacionalmente como uma das redes de informações mais poderosas do mundo. Dificilmente alguma denuncia em cadeia nacional na Rede Globo passa em branco sem alguma cabeça rolar. Não quero fazer deste texto um muro de fuzilamento da Rede Globo, que aliás tem seus méritos por profissionalismo e competência.

O que fica evidente quase que diariamente são os casos em que o quarto poder fica explícito. Na prisão de Flávio Maluf, filho de Paulo Maluf, o jornalista César Tralli da Globo conseguiu se “infiltrar”, disfarçado de policial, na equipe da Polícia Federal e com uma câmera na mão gravou tudo desde o momento em que foi algemado até o interior da sede da PF em São Paulo. A cena “exclusiva” de Flávio sendo algemado acabou virando símbolo da prisão dos Maluf’s. Dias atrás o apresentador da Band Gilberto Barros, o Leão, foi chamado para negociar um seqüestro ao vivo fazendo parte das exigências dos bandidos que fosse tudo gravado e transmitido como uma forma de garantir a sua integridade física. Na mídia impressa quem não se lembra dos artigos do norte-americano Larry Rohter, correspondente do jornal New York Times, sobre Lula? Tentaram até expulsar o jornalista do país, o que acabou sendo um absurdo maior ainda. E as denúncias na Veja e no O Globo contra Roberto Jefferson que acabaram gerando toda essa crise política que nos deparamos, como esquecer!?

Ainda me lembro claramente da denuncia realizada no Fantástico sobre falhas nos programas sociais como o Bolsa-Escola. Filmaram casos em três cidades onde pessoas que aparentemente estavam com uma condição econômica-social que não justificava o recebimento da bolsa de ajuda enquanto pessoas em pior situação estavam de mãos abanando. Com fitas em mão foram até o responsável maior, o ministro Patrus Ananias do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Primeiro deixaram o ministro à vontade falando do seu trabalho desenvolvido no ministério. Em seguida mostraram a fita com os casos explícitos de incompetência administrativa e colocaram o microfone na boca do ministro que estava no chão. Na tentativa de explicar o conjunto de erros Patrus Ananias perante a mídia nacional mostrava-se nervoso embora quisesse transmitir o contrário e suava (não a frio, literalmente mesmo). Pelo jeito saiu-se bem com a frase “as denúncias são uma das melhores formas para corrigirmos os erros e etc, bla-bla-bla” ainda permanece no cargo embora tenha sido vítima do quarto poder.

Sou crítico do abuso de poder não só da Rede Globo como das outras mídias. Quando fica claro que a edição conspira a favor de interesses é revoltante. De qualquer modo fica cada vez mais nítido a consciência da sociedade e a fiscalização contra essa manipulação da massa. Nisso a educação tem grande responsabilidade gerando pessoas que consigam pensar por si próprios, cada cidadão passa a agir como um fiscal.

É esse o poder do qual ninguém está imune e que consegue dar vida ou morte a qualquer coisa. Muito poder a serviço de interesses maiores. Não vejo e nem seria o caso de uma solução. Deve-se sim criar uma conscientização sobre o abuso de poder que não se limita somente ao quarto poder. Com relação às práticas excessivas made in Brasil temos muitos exemplos com os quais nos preocuparmos: violência (física e verbal), autoritarismo, uso de cargos públicos para práticas de atos obscenos, e por aí vai.

OBS - E nada nos surpreende mais neste país. Lula justamente a cara do seu partido, aquele que tantos anos foi o seu garoto propaganda não foi votar na eleição da presidência do PT. Quando minha amiga Paula me confessou que votaria em branco nas eleições (não a do PT, me refiro a eleições em geral) fiquei estarrecido e indignado, não se pode confundir corrupção com a democracia. E eis que o Lula deixa de votar naquele partido que ele mesmo ajudou a fundar. Definitivamente rasgaram aquilo que sempre defenderam. É o replay do “esqueçam o que escrevi, esqueçam o que falei”.

Ruy Hirano, 20, estudante de administração.

FENÔMENO

O dia 7 de setembro passou. A semana da pátria e tudo mais passou. Desfiles alegóricos, ops, militares alegraram a população, carente por algum tipo de entretenimento. É a comemoração da independência.

Só poderia neste momento tratar de um assunto: POLÍTICA.
Algo ocorre neste país tupiniquim. Ao mesmo tempo em que nos deparamos com o maior caso de corrupção já visto, em nossa história e talvez da humanidade, a política domina tudo, está em todos os lugares, em toda mesa de bar e buteco, nas filas do banco, nos ônibus, nas escolas, no metrô, nas reuniões de família de fim de semana, enfim a política impregnou tudo.

Na televisão basta ligar que a política estará lá batendo ponto. Na Globo todos os programas foram temperados com uma pitada de política. Na Grande Família o tema principal foi a eleição para presidente da Associação de Moradores. Todo o processo com direito a compra de votos, troca de favores, esquema do Pastelão do Beiçola e a famigerada CPI. No Casseta e Planeta, então nem se fala. Tem ainda o Programa do Jô que dedica todas as quartas para uma discussão do panorama político com jornalistas (todas mulheres) dessa área, além de entrevistar deputados, senadores, cientistas políticos, etc, nos outros dias da semana. No programa SacaRolha do canal 21 os apresentadores não contentes em comentarem a política da base em São Paulo foram pessoalmente gravar o programa em Brasília, onde com bom humor e bom senso realizam um programa único. Na MTV o dito cujo também brota no programa VJ’s em Ação. No SBT até o sofá da madame Hebe recebe o dito cujo. Na TV Cultura então os programas do Roda Viva só deixam ele aparecer. Na Record o jornalista Boris Casoy continua com a sua implacável marcação sobre os políticos com muita responsabilidade.

Na mídia eletrônica, que ganha cada vez maior significância, o tema também não é outro. Sites como o kibeloco.com.br, charges.com.br estão se transformando em pontos obrigatórios para os que acessam a internet e buscam humor nessa crise toda. O destaque humorístico é tamanho que consolida a frase “Brasil, país da piada pronta”.

A Seção da Tarde saiu e deu lugar ao depoimento de Roberto Jefferson, o Vale a Pena Ver de Novo fica de lado e entra Zé Dirceu, os programas de fofocas então precisaram fazer um up-grade e passaram a debater cada depoimento.

Alguém consegue explicar isso? Alguém explica essa dominação temática da política nas mídias?

Ouso afirmar (minha opinião) que toda essa mudança na postura dos cidadãos brasileiros seja um dos primeiros sinais da universalização da educação realizada no governo FHC. Seria um sinal do avanço da educação na sociedade, pois somente em regiões de baixos índices educacionais o presidente Lula mantém boas avaliações de seu governo e de sua atuação. Talvez seja a experiência democrática que só o tempo ensina. Talvez seja muitas horas na frente da TV e ilusão minha. Mas com certeza algo ocorre. Quando Collor e PC fizeram as suas maracutáias em Brasília eu ainda era um garoto e não me lembro de detalhes, contudo tenho certeza que não teve tamanha repercussão por tanto tempo em tanta variedade de mídia. As atitudes aparentemente são diferentes. Se por um lado os “caras pintadas” jogaram no lixo toda a sua história ao manifestar apoio ao presidente Lula perante o inexplicável, a sociedade e os meios de comunicações buscam maiores informações e atuações responsáveis.

Pessoalmente nada do que se revelou me impressiona, se quiserem procurar mais corruptos encontrarão com facilidade. A corrupção é quase que uma doença crônica no Brasil que exigirá de todos e não somente dos políticos muita seriedade. Ressalto aqui a importância dos empresários nos esquemas de corrupção. Quem pensa que político é tudo corrupto, então trate de repensar a si mesmo, em pesquisa recente com cidadãos paulistanos revelou que mais de 50% dos entrevistados aceitariam fazer parte do esquema do mensalão ou coisa do gênero.

Essa história toda acabará com poucas ou nenhuma condenação jurídica, mas as condenações políticas estão aí. As cabeças estão rolando nos partidos envolvidos. Sobrou até para a lenda Paulo Maluf que finalmente foi parar na cadeia. Não tenho a menor dúvida de que as pessoas, em sua maioria perderam a ingenuidade, descobriram que não se vota de brincadeira, não se vota pela aparência, pela conveniência. O estilo “rouba-mas-faz” de Paulo Maluf saiu de moda. Congressistas do gênero “velho-cacique” como ACM e Jorge Bornhausen apesar de possuírem peso estão perdendo espaço para uma nova geração de políticos comprometidos com os seus eleitores. Surge uma gama de políticos do Executivo que se destacam pela inovação e geração de resultados mesmo com um orçamento apertadíssimo.
O deputado Roberto Jefferson é sujo, corrupto e safado, mas acredito que fez mais pelo nosso país que Dom Pedroca fez ao “comprar” a independência e gritar nas margens do Ipiranga: Independência ou morte. Deixo claro que Bob Jeff e companhia ilimitada precisam ser punidos pelo que fizeram de errado. Contudo ressalto que independência, desenvolvimento, comprometimento, seriedade, respeito e outras coisas mais, não se compra, mas sim se constrói e conquista. Como podemos ver somos um país independente, mas nem tanto.

Ruy Hirano, 20, estudante de administração.

segunda-feira, maio 16, 2005

O BRASIL QUE DÁ INVEJA À SUÍÇA

Caros amigos(as) e colegas, vocês não estão delirando. É isso mesmo, existe no Brasil um “país” onde as pessoas são mais desenvolvidas e vivem em melhores condições do que os suíços. As pessoas são altamente qualificadas e têm uma remuneração equivalente ou superior ao Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos países mais desenvolvidos. Inclinando um pouco para a minha veia nacionalista, existe um Brasil que funciona, dá certo e mostra que o que hoje é uma ilha de prosperidade pode em breve se transformar em um continente.
O índice de desenvolvimento humano, o IDH como é mais conhecido, é utilizado pelas Nações Unidas para mensurar as realizações médias de um país em três áreas do desenvolvimento humano: “uma vida longa e saudável, medida pela esperança de vida à nascença; conhecimento, medido pela taxa de alfabetização de adultos e pela taxa de escolarização bruta combinada dos ensinos primário, secundário e superior; e um padrão de vida digno, medido pelo PIB per capita em dólares PPC (paridade do poder de compra).” (fonte: relatório do desenvolvimento humano 2004).
Quanto mais o IDH se aproximar de um, mais desenvolvido é o país. A Noruega lidera o ranking com 0,956, seguido por Suécia, Austrália, Canadá, Holanda, Bélgica, Islândia, Estados Unidos, Japão e, para concluir os top 10, a Irlanda. O Brasil aparece na posição 72 como desenvolvimento humano médio. No final da fila estão Guiné-Bissau, Burundi, Mali, Burkina Faso, Niger e Serra Leoa.
Portanto o IDH leva em consideração três critérios: expectativa de vida, renda e escolaridade. Com base nisso e em dados do IBGE, o professor de Economia do Trabalho da Universidade Federal do Rio de Janeiro Marcelo Paixão chegou às seguintes conclusões:
1) O IDH dos judeus brasileiros supera o IDH da Noruega;
2) O IDH dos descendentes de orientais (japoneses, coreanos e chineses) é similar ao do Japão.
Para explicar esses dados impressionantes destaco a importância que a educação tem na vida de judeus, japoneses, coreanos e chineses. Dos judeus acima dos 25 anos de idade, 63% deles estão cursando ou já concluíram o ensino superior. No ritual de passagem da vida infantil para a adulta (bar mitzvá) os judeus aos 13 anos precisam ler a Torá, se não eles ficarão em Neverland onde continuarão sendo criança. Com relação aos asiáticos há uma mistura de valorização da educação, com meritocracia, disciplina e respeito ao professor.
Não quero aqui defender supremacia e superioridade racial, muito pelo contrário, acredito que esses exemplos demonstram que mesmo em um país desacreditado como é o Brasil é possível ter uma vida que supera a dos japoneses, norte americanos e alemães. Com a novela América que está no ar na Rede Globo, está na moda o tema imigração. São milhares de pessoas que anualmente “tentam a sorte” nos países desenvolvidos, com destaque para os Estados Unidos e Japão, seja por razões financeiras ou por causa da violência local.
Oriundo do estado de Mato Grosso atual líder nacional na produção de soja, algodão e um dos principais produtores pecuários e de outros cultivos vejo os avanços do agronegócio como exemplo do potencial brasileiro. Têm grande destaque na mídia nacional e internacional os frutos da riqueza produzida na região. Impressionante consumo de aviões, máquinas agrícolas de 500.000 reais cada, carros importados, etc. As cidades esbanjam escolas públicas de qualidade, hospitais onde ninguém fica jogado nos corredores, esgoto e água potável para quase a totalidade da população. Infelizmente o que não mostram é a coragem e a ousadia de empreendedores originários em sua grande maioria do sul do Brasil. Enfrentaram elevadíssimos riscos que qualquer um analista de crédito de banco classificaria como capital perdido, mas principalmente acreditaram no país, acreditaram que poderiam criar riqueza no solo pobre e ácido do cerrado. Sequer existia na época semente adequada para a área a ser cultivada, a terra era imprópria para praticamente qualquer cultivo e os recursos para investir eram escassos.
Os ganhos de produtividade em tão curto prazo hoje impressionam o mundo todo, mas o que realmente importa é o aumento da qualidade de vida da população daquela região. A agropecuária brasileira já está começando a ser chamada como celeiro do mundo e figura entre as potências. Com tantos problemas que surgem na mídia elas nos fazem acreditar que vivemos no pior país no mundo, mas é preciso acreditar no Brasil e não só assumir os problemas como também enfrenta-los com criatividade e vontade.
Para encerrar gostaria de contar uma história triste que teria um fim diferente em qualquer país desenvolvido do mundo. O desenvolvimento de um país está na atitude do povo que a constitui e não apenas em números, como diria o Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry.

O pedreiro que inovou no combate à seca
Foi transportando diariamente no lombo de um burro 90 litros de água que Manuel Apolônio de Carvalho teve a idéia de construir um modelo de cisterna popular, mais barata e resistente, para captar a água da chuva e armazenar num tanque. Após 50 anos de sua invenção, o projeto de cisternas proporciona água para centenas de milhares de pessoas que moram no Semi-Árido nordestino.
Desde cedo, ele aprendeu a se adaptar à dura realidade da seca. Para garantir a água de sua família e irmãos, Apolônio viajava seis horas por dia até o riacho mais próximo de sua casa. Em busca de um futuro melhor, decidiu aos 17 anos tentar a sorte em São Paulo. Enfrentou dias de viagem num “pau de arara” — caminhões precários que transportavam os migrantes —, chegou à capital e começou a trabalhar como servente de pedreiro na construção de piscinas.
Após quatro meses na cidade, tempo suficiente para dominar a técnica da construção de piscinas, Apolônio decidiu voltar para a Bahia com a roupa do corpo e uma idéia na cabeça: a piscina que servia de lazer aos paulistas abastados serviu também de inspiração para Apolônio criar um sistema simples que ajudou a combater o complicado problema da seca de sua região. “Descobri que tinha criado um meio de ganhar dinheiro e também de ajudar as pessoas que sofriam”, afirma.
A principal diferença entre as cisternas tradicionais e a criada por Apolônio está na técnica de construção. Ao invés de utilizar formato quadrado com estrutura de pedra e cal, ele criou uma cisterna redonda, estruturada em placas pré-moldadas de cimento. Com esse processo, a cisterna pode ser construída de forma mais rápida e com um custo inferior.
Bastou Apolônio construir a primeira cisterna, na casa de um amigo de seu pai, para a idéia ganhar força em sua comunidade — a água da chuva era captada do telhado da casa e armazenada num tanque. Três anos após a primeira obra, ele já havia construído cerca de 400 cisternas em diversas regiões do Semi-Árido. A partir daí o negócio cresceu, e Apolônio montou uma equipe para construir cisternas por todos os Estados do Nordeste. “Cheguei a ter 70 empregados e perdi a conta de quantos cisternas construímos”, orgulha-se.
O sistema criado por Apolônio ganhou popularidade e, com o passar dos anos, começou a ser utilizado por organizações públicas e privadas. Na mesma medida em que as cisternas se popularizavam, Apolônio foi perdendo clientes, até ser engolido por empreiteiras maiores. Hoje, vive com dificuldade com sua esposa e três filhas. “Recebi homenagens de ministros e do governo, mas o que eu quero hoje é apenas um dinheiro pra poder comer”. Atualmente com 68 anos, o inventor das cisternas diz sofrer de problemas de saúde e não ter dinheiro para pagar um tratamento adequado.

Ruy Hirano, 20, estudante de administração.

segunda-feira, maio 02, 2005

FELIZ ANIVERSÁRIO!

Neste final de semana fez um mês que ocorreu no Rio de Janeiro o que foi intitulado como o “massacre na Baixada”. Em uma hora 30 pessoas foram assassinadas à bala em 11 locais das cidades de Nova Iguaçu e Queimados, municípios da Baixada Fluminense. Para se ter uma idéia essa foi a ação mais violenta desde o assassinato de 21 pessoas por policiais na favela de Vigário Geral em agosto de 1993. Novamente existem fortes indícios do envolvimento de policiais no caso. Desta vez eles estariam agindo como resposta a investigações determinadas pelos comandantes dos batalhões na Baixada Fluminense. Dias antes do massacre oito policiais foram presos acusados de matar duas pessoas, degolar uma delas e jogar a cabeça dentro do pátio do batalhão.
Das trinta pessoas que foram fuziladas pelo menos sete eram menores de 18 anos, dos quais seis tinha 15 anos ou menos. Uma das vítimas tinha ido ao bar pagar uma dívida de R$ 2, outro garoto foi morto na frente da mãe e um pai foi executado na frente da filha de quatro anos
Os participantes do massacre nem se preocuparam em esconder os rostos durante a ação. Segundo denúncias de moradores e especialistas esses grupos de policiais são grupos de extermínio que surgiram em julho de 1962 quando uma onda de saques durante uma greve geral deixou mais de 40 mortos e comerciantes de Duque de Caxias contrataram “vigilantes” para proteger seus negócios. Desde então alguns policiais fazem “hora-extra” para comerciantes e traficantes da região.
Detalhando o tour que o esquadrão fez as primeiras vítimas foram dois ciclistas que passavam pela rodovia Presidente Dutra, em seguida um cozinheiro que passava pela rua e depois dois travestis. Depois de passearem por um tempo decidiram passar em um bar e matarem mais nove e invadirem uma casa onde dois irmãos foram mortos na frente da esposa de um deles. No caminho mais dois foram mortos. Seguindo a viagem para Queimados, a cerca de 15 km de distância, resolveram fazer um pit-stop em um lava-jato onde até o centro foram mais três mortos. Passando em frente a um bar derrubaram mais cinco pessoas e fizeram outro pit-stop final onde outras quatro pessoas foram mortas. Nossa!!! Nem dá pra acreditar que isso aconteceu em duas cidades urbanas que juntas somam quase 950 mil habitantes. Parece até um relatório de algum soldado ianque no Iraque.
Nova Iguaçu e Queimados são dois típicos municípios que revelam o lado pobre deste país. A renda per capita mensal não passa de R$ 421 quando no Estado do Rio a média é de R$ 997. A média de anos de estudo beira os seis anos e o analfabetismo oficial gira em torno de 6%. Não quero estimular aqui o ódio contra aqueles que tem menos renda, educação e qualificação do que nós. Muito pelo contrário.
Vamos fazer uma breve reflexão:
Imaginem a cidade de São Paulo. Policiais decidem começar a “caçada” no parque do Ibirapuera matando dois ciclistas, depois passam pelo bairro de Moema e deixam mais três corpos na região e em seguida rumam para o centro da cidade na esquina da avenida São João com a Ipiranga, lá no badalado Bar Brahma e decidem matar mais seis fregueses. Seguindo o tour vão para a região de Higienópolis onde matam quatro “intelectuais” que descansavam na praça Boim, incansáveis passam pela FGV onde matam três pessoas (Deus me livre se for um professor, bata na madeira), e rumam para a cidade vizinha chamada Jardins. Entre freguesas da Oscar Freire e ademais pessoas endinheiradas ficam quatro pessoas no caminho apesar da maior concentração de seguranças por metro quadrado do país. Não poderia faltar uma balada na Vila Olímpia onde mais duas pessoas vão para o IML (Instituto Médico Legal) e para o gran finale todo o estilo na nova Villa Daslu onde seis donzelas seriam fuziladas. Pronto, por incrível que pareça consegui distribuir 30 mortes pela cidade de São Paulo. Agora imagine que isso tudo aconteça em 1 hora. Chega a ser inimaginável. Mas por que?
O presidente Lula somente se limitou a declarar o caso como um crime bárbaro e covarde e designou alguns ministros para o caso. Em seguida deu continuidade a sua agenda de viagens e preparativos para a eleição que se aproxima. Será que essa atitude seria a mesma se tivesse o crime ocorrido como inventei acima ou mesmo em Ipanema ou na Barra da Tijuca? Será que a repercussão na mídia seria a mesma que o massacre na baixada?
Para efeito comparativo veja a missionária americana Dorothy Stang que foi assassinada no norte do país. Repercutiu tanto na mídia e na sociedade que até mandaram o Exército pra região. Mas também tem o caso da morte por fome de alguns índios e isso no país do Fome Zero. Segundo o brilhante ministro da Saúde Humberto Costa o número de mortes naquela tribo está na média estatística de sempre, portanto está tudo bem.

Faz um mês que o massacre na baixada aconteceu e até agora vemos a repercussão do fato. As pessoas não conseguem parar de falar sobre isso. O ex-papa João Paulo deve até estar incomodado de como falam do maior massacre do Rio de Janeiro e não da sua morte e sucessão. Esse texto serve mais como um convite à reflexão de que antes de começarmos a pensar em pena de morte e cadeira elétrica, ou mesmo gastarmos rios de dinheiro na autodefesa blindando o carro ou erguendo grades e muros de dar inveja a qualquer castelo medieval, devemos considerar os brasileiros como seres humanos em sua essência independente da renda, cor ou aparência.

Ruy Hirano, 20, estudante de administração.