sexta-feira, julho 04, 2008

ESTONIA - A primeira impressão é a que não fica

População Estônia: 1.340.000
População Tallinn: 400.000
População Tartu: 102.000
População Võru: 14.500
População Pärnu:  45.000

Quantas vezes já não deparamos com uma situação onde estávamos convictos de algo e uma situação inesperada permitiu ver as coisas por outro ângulo?
Quantas vezes não encontramos uma pessoa que parecia ser estranha, mas provou ser bacana?
Quantas vezes a primeira impressão foi a que não ficou?

A primeira impressão que se tem na Estônia é a de um país com fortes resquícios do combalido comunismo soviético. Apesar do forte desenvolvimento econômico recente comparável à China e que lhe rendeu o rótulo de país do leste europeu de maior sucesso na transição para o capitalismo os sinais de uma ex-república socialista soviética ainda se fazem presente. Seja pelas moradias com blocos de apartamentos quadrados e cinza, além das casas de aparência antiga e assustadora. Seja pelas construções de arquitetura russa simples e fria. Seja pela presença numerosa e convivência forçada com os russos, os invasores mais recentes deste pequeno país.

A Estônia já fez parte do império sueco e com a guerra entre suecos e russos passou a ser parte do império soviético até 1918 quando declarou independência. Obviamente a independência e o desligamento do império russo não foi algo aceito pacificamente. Com o advento da Segunda Guerra Mundial a Estônia foi novamente afetada invadida e ocupada pelos russos em 1940. Seguida então pela invasão alemã em 1941. A Alemanha de Adolf Hitler no começo até chegou a ser bem recebida, pois estavam expulsando os russos, mas foi uma questão de tempo para perceberem que a intenção alemã não era promover a liberdade. A ocupação germânica teve fim em 1944 com o enfraquecimento do nazismo no fronte leste e avanço das tropas de Stalin rumo ao oeste. Com a formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas a independência voltaria somente em 1991.

No ar existe uma certa tensão constante. Os russos não conseguem entender porque os estonianos não são gratos a eles por libertarem do horror nazista, apesar de durante o período soviético muitos estonianos serem enviados para campos de concentração na Sibéria. Já os estonianos alguns são indiferentes, outros isolam socialmente os russos. Fato é que a grande maioria dos pobres na Estônia é composto por russos, assim como a presença nas páginas policiais é praticamente espaço exclusivo russo dominado por Ivan's, Igor's, Dmitri's e companhia.

Os resquícios do passado recente estão ali ainda. Marcas ainda mais antigas também. O centro velho de Tallinn, principal atração turística da Estônia, apresenta um conjunto de arquitetura medieval composto por muros e torres que datam do período em que o Brasil era residência exclusiva dos indígenas. Tão impressionante preservação das construções erguidas para defender Tallinn de invasores que até parece que foi erguida recentemente com o intuito de atrair turistas com a promessa de que aquilo é medieval e original.

Fora do olhar do turista convencional a vida local é surpreendente. Nunca esperei que os resquícios do sócio-comunismo se aproximasse tanto do capitalismo apesar da eterna oposição. A necessidade de um carro para se locomover, a presença de inúmeros shopping centers (obviamente a quase totalidade dos shopping centers surgiram após a adoção do capitalismo através de investimentos externos, porém o que chama a atenção é a cultura de fazer compras em um lugar, no shopping ao invés de comércio de rua), desenvolvimento urbano horizontal e disperso. Além da programação televisiva entupida de enlatado americano (seriados e filmes) que com legendas e sem dublagem ajuda os estonianos a desenvolverem o inglês.

O sócio-comunismo pregava a igualdade dos indivíduos, a cooperação mútua para a vida coletiva harmoniosa, logo é mais do que natural esperar que esse senso de coletividade e respeito esteja enraizada na cultura local certo? Ledo engano. Cá aqui entre nós os estonianos parecem criaturas que só recentemente começaram a se civilizarem. Não é normal esbarrar em alguém na rua e pedir desculpa. Também não é normal jovens sentados nos ônibus levantarem para idosos sentarem. Quando a pessoa tropeça e cai no chão não é de se esperar um "você está bem?", mas sim risadas. Descrevendo desta forma parece uma calamidade e injustificável que uma sociedade como essa consiga se desenvolver. Assim como a Estônia apresenta surpresas negativas ela apresenta também surpresas positivas. No exame PISA da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que mede o aprendizado nas áreas de idioma, matemática e ciências que o sistema escolar proporciona a Estônia já despontra entre os primeiros colocados superando a maioria dos países desenvolvidos. A cultura das pessoas 
está mudando muito rapidamente. Provavelmente a próxima geração estará alinhada com os europeus ricos do centro e oeste. Diferente do Brasil que parou no tempo e vive uma deterioração moral onde anormalidades viram banalidades, na Estônia dá para sentir que as mudanças estão e irão acontecer. É um país que pode ser chamado de país em desenvolvimento literalmente. É uma questão de tempo para deixar de ser rotulado como país de mão de obra barata.

TEMPO. É preciso tempo para rever suas primeiras impressões sobre Estônia. A mesma cidade que abriga muros e torres medievais também abriga uma das bases do Skype, empresa que está alterando o setor de telecomunicações no mundo. O tempo transformará Tallinn em outra cidade da que é atualmente sem dúvida. Então as impressões terão de ser revistas novamente e a primeira impressão é a que não fica(rá).


















































Brasil até na Estônia. Alguém quer levar o Ronaldo para casa como lembrança de Tallinn?

Uma das maiores cachoeiras da Estônia  :)



Teeme Ära - evento de coletar lixo da natureza. Prazer de ter participado da primeira edição do evento que contou com a participação do presidente da república. Excelente exercício de cidadania. Abaixo show de encerramento.





TARTU - cidade universitária


Biblioteca da cidade com a fonte mais bacana que vi na Europa



Famosa estátua Kissing Students



Maior e mais tradicional universidade da Estônia fundada pelo rei da Suécia Gustavus Adolphus em 1632.
Quarto onde os estudantes universitários que quebravam as regras cumpriam penitência.


VÕRU - A cidade mais reflexiva da viagem.
O que realmente precisamos nesta vida para sermos felizes?
Eis a pergunta que mais me ocupava em Võru.









PÄRNU - Capital do verão, cidade praia





















Segunda partida de futebol na Estônia.


Love is in the rock.


terça-feira, maio 13, 2008

BERLIN - Nada se perde, tudo se transforma.

População: 3.415.000

Andar por Berlin é literalmente andar pela história e pelo seu passado. Marcas no chão evidenciam onde certo tempo havia um muro ali. Prédios carregados de significados que já serviram de cenário para acontecimentos que mudaram a história ou restos de construções que representam passagens históricas.

Nunca senti o passado tão presente.

A cidade é como um museu gigante, muitas vezes a sensação que tive é a de que Berlin parou no tempo para viver do seu passado. Até mesmo as novas contruções como o Memorial do Holocausto se refere ao passado.
Pura ilusão.
Grande evidência de que a cidade não parou no tempo é a dificuldade em reconhecer que aquela parte onde hoje está cheia de lojas e shopping center ficava na área oriental. Áreas onde nascem prédios modernos de aço e vidro. Contudo é difícil pensar em Berlin sem as últimas partes intactas do muro e seus pedaços vendidos como souvenir; sem artistas travestidos de soldado americano e soviético no portão de Brandenburg e Checkpoint Charlie; sem museu da DDR para reviver a sociedade alemã socialista.

Tanta história que naturalmente atrai hordas de turistas de todo o mundo. Ironicamente muitos turistas da China, ainda "comunista", que visitam Berlin para conhecerem a cidade historicamente marcada pela divisão ideológica.

A divisão da cidade ainda é muito visível.
Algumas áreas freqüentadas somente por diplomatas e milionários com lojas caríssimas, carros de alto luxo estacionados nas ruas, cafés e restaurantes bacanas com menu inacessível para os meros mortais e outras áreas freqüentadas somente por imigrantes e mendigos com lojas de segunda mão, carros da era soviética estacionados nas ruas, cafés e restaurantes baratos e de higiene um tanto que duvidosa.

Mas Berlin é isso, uma cidade que representa o conceito biológico de que nada se perde, tudo se transforma. 
Onde vivem e convivem neonazistas, punks, muçulmanos, indianos, executivos e diplomatas.
Onde velhos Trabans se transformam em novas manias convivendo com Smarts e Ferraris.
Onde o velho Reichstag que sobrevive ao tempo é reconstruído e sedia atualmente o parlamento alemão.
Onde a velha estação central de trem se transforma em um ultramoderno centro de transporte.
Onde o velho dá espaço ao novo que revive o velho.





Estação central de Berlin reformada recentemente.


Reichstag, o parlamento alemão.


Memorial do holocausto.



Algumas ruas em transformação.





Reconstituição de um lar da Alemanha socialista.





O Muro e seu rastro.



Área de Berlin Oriental ainda "intacta".


Potsdamer platz.


Flagrante de trânsito em Berlin... quanto tempo essa bagunça durou? Menos de 1 minuto, o tempo de tirar umas fotos.





Portão de Brandenburg e Checkpoint Charlie.







Guindastes fazem parte do cenário da cidade em constante transformação.


Fernsehenturm




Prédio antigo abandonado na Berlin Oriental.