segunda-feira, novembro 14, 2005

SONHOS, PLANOS E O BRASIL

Realizada pela Confederação Nacional do Transporte anualmente, a pesquisa rodoviária sobre as condições das estradas brasileiras estudou 82 mil quilômetros e analisando os aspectos pavimentação, sinalização e geometria, chegou-se a seguinte conclusão: 72% das rodovias brasileiras são classificadas como “deficientes”, “ruins” ou “péssimas”. O Brasil apesar de suas dimensões geográficas e por seu histórico de preferência pelo meio rodoviário possui somente 180 mil quilômetros de estradas pavimentadas o que fica ainda mais ridículo quando comparado com outros países, Espanha (343 mil), Inglaterra (371 mil), Alemanha (650 mil), França (892 mil) e pasmem Japão (863 mil quilômetros de estradas pavimentadas). Isso mesmo um conjunto de ilhas na Ásia possui quase 5 vezes mais estradas do que um país continental como o Brasil, e a qualidade dessas estradas não precisa nem comentar.
Quando o meio de transporte é o ferroviário o Brasil de hoje está pior do que em 1940. Naquela época eram 34 mil quilômetros de estradas de ferro e atualmente são menos de 30 mil quilômetros. Os portos estão todos operando em capacidade máxima e os investimentos realizados pelo Estado são insuficientes para atender adequadamente às exportações. Na área de energia já surgem discussões de uma possível segunda edição do apagão para os próximos anos, os mais otimistas projetam para 2010, os investimentos realizados são poucos e insuficientes para sustentar um crescimento econômico contínuo.

Para contrapor a apatia brasileira a tão famigerada China cresce a duas décadas e meia a uma taxa de 9,5% ao ano. Dados divulgados no terceiro semestre deste ano já indicam crescimento de 9,4% apesar dos esforços do governo chinês para conter o crescimento. Recentemente ocorreu o Salão de Planejamento Urbano de Xangai, a maior metrópole da China. Grande destaque do evento é a Cidade do Futuro, uma maquete do tamanho de uma quadra de basquete com detalhes que representam a Xangai de 2020. Lá estão representadas todas as obras e construções a serem realizadas nos próximos 15 anos na cidade habitada atualmente por 15 milhões de pessoas. Desde autopistas, linhas de metrô, centros de pesquisa, indústrias e arranha-céus até escolas, universidades e conjuntos residenciais. Tudo ali representado com riquíssimo nível de detalhamento. (Aquela maquete representa não somente um belo sonho, mas o que os chineses querem ser, os seus objetivos e metas dentro de 15 anos). E pelo andar das coisas os planos da China e de Xangai não são brincadeira. Neste ano Xangai se tornará a capital mundial dos arranha-céus. Contando com cerca de 4000 desses edifícios, quase o dobro do que em Nova York, deve encerrar a década com mil novos arranha-céus.

Em outra parte do mundo há um outro caso inacreditável de sonho, planejamento e transformação da sociedade. Esse caso foi anos atrás um plano como é Xangai atualmente. Estou falando de Dortmund na Alemanha. Dortmund conta com uma população de 600.000 habitantes, terceira maior cidade da região, que concentra 25% do Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha. Na história recente a economia da cidade era baseada nas industrias do carvão, aço e cerveja (bebidas). Com o processo de globalização e a entrada de competidores globais nesses setores com custos mais competitivos (países como a China) a economia da cidade entrou em declínio.
Perante os novos desafios a cidade decidiu por uma parceria público-privada (que ainda engatinha no Brasil). De novembro de 1999 até maio de 2000 foi firmado o projeto entre a cidade de Dortmund, a empresa ThyssenKrupp AG e a consultoria McKinsey & Company. Isso mesmo, um projeto de transformação de uma cidade inteira com conseqüências em toda a Europa. Lançado em junho de 2000 o Projeto-Dortmund (www.dortmund-project.com) tem como lema “Investment, not subsidies” e meta principal criar 70 mil novos empregos até 2010 atraindo investimentos internos e externos.
O projeto foca nas áreas de tecnologia da informação (TI), micro-eletrônica (micro-eletronic-mechanical systems - MEMS) e logística eletrônica (e-log), prevendo apoio às empresas tradicionais ajudando na modernização e reorganização para que a velha e a nova economia possam aproveitar sinergias. Existem seis objetivos principais que basicamente são: atração de empresas high-tech de países externos, apoio à velha economia para um crescimento conjunto com a nova, cuidados com o ensino e a geração de mão-de-obra qualificada, planejamento urbano para garantir crescimento econômico e demográfico mantendo elevada qualidade de vida, redução de processos burocráticos economizando tempo e dinheiro para as empresas e realização de parcerias público-privadas. Para alcançar seus objetivos serão investidos mais de 500 milhões de euros (uma ninharia quando comparado ao que é mal gasto em programas sociais no Brasil como o projeto Fome Zero, que em nada contribui em termos de avanços econômicos, contudo é importante lembrar que o Brasil ainda não conta com uma população educada com acesso ao ensino superior como a população de Dortmund já tinha acesso antes mesmo do declínio da velha economia).
Dortmund transformou-se em um dos centros de ensino na Europa concentrando universidades e institutos de pesquisa. Somente Dortmund possui 25 institutos científicos voltados somente para software e TI. A maquete de Dortmund em 2010 é ser vista como a e-city européia, isto é, uma cidade referência na Europa pela economia de moderna de alta tecnologia.

“Quando começou o governo Juscelino Kubitschek, em 1956, o Brasil não produzia um único automóvel. Todos eram importados. Cinco anos depois, no fim do mandato de JK, a produção brasileira anual já atingia 132 mil veículos. Nesses mesmos cinco anos, a capacidade de produção de energia elétrica cresceu 66%, a produção de aço dobrou, a de petróleo foi multiplicada por 11 e a de papel e celulose avançou 122%... (desenvolvimento) se baseou em esquema tripartite, com participações de capitais nacionais, estatais e estrangeiros”. Trecho do artigo “Xangai está certa” de Benjamin Steinbruch publicado em 30 de agosto de 2005.
Fato é que não podemos ficar de braços cruzados amargando a crise política e afundando na desesperança neste país. Acordei neste domingo e assisti pela televisão projetos brasileiros bem sucedidos, a evolução da ginástica e do iatismo no Brasil. O Brasil foi novamente ouro na ginástica, desta vez na categoria ginástica rítmica no pré-panamericano. Quem diria anos atrás que o Brasil seria uma potência na ginástica? No iatismo Robert Scheidt dispensa comentários e pela primeira vez na história o Brasil participa do torneio de volta ao mundo. O barco Brasil1 foi totalmente construído no Brasil com tecnologia e engenharia brasileira. Até agora o desempenho supera todas as expectativas. Essa evolução sem precedentes pelo menos no esporte e que pode ser aplicada em qualquer outra área revela que sem sonho, planejamento e execução com seriedade nada vai para frente.
OBS: escrevi este artigo com a angustia de ver o país parado, perdido, sem sonhos e sem pretensões em um mundo cada vez menos piedoso. As únicas metas que o Brasil têm são metas de inflação e de taxa SELIC. Enquanto assistimos à novela dos senhores de Brasília na mega fábrica de pizza o tempo passa e o Brasil vai ficando cada vez mais distante do bonde.

Ruy Hirano, 20, estudante de administração.

quarta-feira, outubro 19, 2005

O BRASIL E O DESARMAMENTO

No próximo domingo será realizado o referendo com a seguinte questão: O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?
Será sim ou não. Parece que acabaram com o voto branco e nulo, o que me deixa revoltado. Por voto nulo entendo como uma abstenção à adesão de qualquer ideal, ou parte. Por voto branco entendo como “sem opinião”, ou dar aval a qualquer coisa que for decidido, algo como dar um cheque em branco. Eu votarei sim, mas explico porque gostaria de votar branco.

Das questões a serem discutidas, algumas já foram apresentadas durante a propaganda nos meios de comunicação.
O lado do não (www.votonao.com.br) apresenta seis razões para votar não no referendo:
1. “Infelizmente, a proibição da venda LEGAL de armas não vai desarmar os bandidos. Nem vai acabar com a violência e a falta de segurança. Dia 23 de outubro, DIGA NÃO”.
- A proibição não vai desarmar os “bandidos”. Não é isso o que está sendo decidido no referendo aliás, e pra desarmar bandido não há referendo ou lei que o faça.

2. “Estão vendendo a idéia que o referendo é sobre o desarmamento e não sobre a proibição da venda LEGAL de armas. Isso não é verdade. DIGA NÃO a essa mentira”.
- O referendo é sobre a comercialização de armas mesmo, desarmar a população é algo impossível ao meu ver, principalmente em um país do tamanho do Brasil e com suas características. Seja sim, seja não ninguém vai desarmar ninguém, os ditos “bandidos” continuarão com suas armas que brota do chão da favela e os ricos continuarão com os seus seguranças armados e os carros blindados.

3. “Proibir a venda legal de armas pode aumentar ainda mais o contrabando de armas e munições e criar mais espaço para a ação dos bandidos. DIGA NÃO a essa situação”.
- Para os desinformados a maior parte das armas contrabandeadas é de fabricação brasileira. Ela é fabricada aqui, sai do país, depois entra pela super protegida fronteira. Mesmo esquema utilizado por algumas fabricantes de bebidas, e outras fabricantes que querem pagar menos impostos. Outra forma de acesso ás armas é por meio de militares corruptos da polícia e das forças armadas. Há ainda outras formas, mas esses são os mais simples e fáceis. O que eu não entendi foi esse “criar mais espaço para a ação dos bandidos”. Sei lá o que estão querendo insinuar. O autor aqui, que comenta a frase, diz NÃO às frases com duplo, triplo sentidos.

4. “Estão querendo desarmar o cidadão de bem, proibindo a venda LEGAL de armas. Pois o bandido não compra armas legalmente. DIGA NÃO”.
- Desde que começou a campanha acerca do referendo o que eu mais quero descobrir é uma definição para “cidadão de bem”. Talvez são as pessoas que trabalham, pagam impostos, pessoas “corretas” ou “normais”. Nesse perfil podemos incluir grande parte dos bandidos, pois como revela estudos da polícia militar uma parcela significativa dos presos eram empregados, isto é, trabalhavam, pagavam impostos, eram bem vistos pelas pessoas. Como grande exemplo de cidadã de bem eu colocaria Suzane von Richthofen. Garota direita de família rica cursava direito em uma das melhores faculdades do país. Essa sim é uma cidadã de bem. Outro símbolo de cidadão de bem é o nosso presidente Lula. Defensor de uma melhor distribuição de renda para os deputados e partidos, não deixou suas ideologias influenciarem. Comprou o apoio do PP de Maluf e recebeu de brinde o maior escândalo do governo. Mesmo assim é um cidadão tão do bem que novamente na eleição de Aldo Rebelo para a presidência da Câmara dos Deputados abriu os braços e os cofres para esses partidos que o apunhalaram. Esse sim é um “cidadão de bem”. Por fim é obvio que bandido não compra arma, muito menos legalmente. Neste país só rico tem dinheiro pra comprar uma arma.

5. “Estão querendo tirar um direito que o cidadão de bem já tem. E que pode ou não usar: o de comprar armas legalmente. DIGA NÃO à cassação desse seu direito”.
- Isso mesmo querem tirar um direito que é do cidadão. Ainda bem que não tiraram ainda o direito do “cidadão de bem” de ter acesso a uma escola pública de qualidade. Ainda bem que temos direito a um sistema público de saúde. Também temos direito a ir e vir pelas rodovias destruídas do país e o direito à segurança, à integridade. Ainda bem que temos todos esses direitos e que eles são respeitados. Ainda bem.

6. “É importante saber que o PORTE DE ARMA (andar armado) ESTÁ PROIBIDO (desde a aprovação do estatuto do Desarmamento, em 2003) e a POSSE DE ARMA já está regulamentada. Não é nada simples comprar LEGALMENTE uma arma. É preciso apresentar mais de 5 certidões, exame psicotécnico etc. DIGA NÃO“.
- Realmente a burocracia brasileira é impressionante. O simples ato de comprar uma arma precisa de atestado que comprove que o portador tem mínima condição psicológica para tê-la, é realmente um absurdo. Diga não ao teste psicotécnico e defenda a desburocratização ao acesso à arma. Deveria ser como o jovem que matou três pessoas e feriu cinco em um cinema no Morumbi Shopping. Buy and try. Simple and easy.

Depois de tanto DIGA NÃO, diga não ao não.
Do outro lado temos a frente por um Brasil sem armas (www.referendosim.com.br) que apresenta dez razões para votar sim:
1. “Existem armas demais neste país”.
- Ser o país onde mais pessoas morrem por armas de fogo no mundo deve dizer alguma coisa. No mínimo algo não anda bem.

2. “Armas foram feitas para matar”.
- Algumas pessoas acham que é pra defesa, pra segurança, mas deixando de conversa mole se tiver de matar alguma pessoa em prol de si próprio, que se mate mesmo, atire para matar. Não é esta a idéia nua e crua?

3. “Ter armas em casa aumenta o risco, não a proteção”.
- Especialistas determinam treinamento para pessoas que querem ter porte de arma com 300 balas semanais, 300 tiros para que a ação se torne automática e precisa. Qual a probabilidade de mesmo os policiais e o BOPE (batalhão de operações especiais do Rio de Janeiro), para aqueles que lembram do episodio ônibus 174, estarem treinando com esta freqüência? É certo que nenhum cidadão de bem também não consegue treinar com esta freqüência, e ter uma arma sem nunca ter atirado é pior do que dar a arma para um cego.

4. “A presença de uma arma pode transformar qualquer cidadão em criminoso”.
- Esse argumento costuma cair quando comparado com países como Suíça, Israel, etc. onde a posse de armas não transforma os cidadãos em criminosos, mas como estamos no Brasil a coisa é mais embaixo, assim como a educação. As estatísticas comprovam que a grande maioria dos crimes com armas são para a solução de desavenças pessoais e não matar para roubar.

5. “Quando existe uma arma dentro de casa, a mulher corre muito mais risco de levar um tiro do que o ladrão”.
- Realmente deve existir um campo eletromagnético em volta do corpo feminino que atrai as balas. É tiro e queda.

6. “Em caso de assalto à mão armada, quem reage com arma de fogo corre mais risco de morrer”.
- Não precisa de muitas explicações porque enquanto a vitima saca a arma o bandido já está engatilhado, e eu com minha larga experiência como vítima de assalto acredito com veemência neste argumento.

7. “Controlar as armas legais ajuda na luta contra o crime. A - O mercado legal abastece o ilegal. B - As armas compradas legalmente correm o risco de cair nas mãos erradas, através de roubo, revenda ou perda”.
- Se o controle das armas legais ajudasse na luta contra o crime já estaria ajudando não? Já não são controladas??? Isso aqui está parecendo pegadinha.

8. “O Estatuto do Desarmamento é uma lei que desarma o bandido”.
- Eu não consigo imaginar um “cidadão de bem” andando armado por aí sem razão. Portanto se há alguém a ser desarmado é o bandido e obviamente é isso que o Estatuto visa, pelo menos é o mínimo a se esperar.

9. “Controlar as armas salva vidas”.
- O controle não salva a vida de ninguém, mas sim a educação daquele que está com o dedo no gatilho. Se as armas passassem a ser controladas no Iraque em nada diminuiria os homicídios, já na Suíça provavelmente não teria alteração nenhuma.

10. “Desarmamento é o primeiro passo”.
- O segundo passo é rezar, o terceiro é tomar vergonha na cara, o quarto é se eximir de preconceitos contra pobre e preto, o quinto é fazer algo que ajude essas pessoas menos favorecidas, e por aí vai, mas quem está disposto a seguir passos tão difíceis, muito mais fácil comprar uma arma e blindar o carro.

Muito do que está sendo discutido não passa de uma irracionalidade psicológica, uma histeria. Debates acerca da proibição do comércio de armas de fogo em sua grande maioria são realizados por pessoas que nunca foram vítimas da violência, pessoas que defendem o porte de armas e a sua comercialização sem que nunca manusearam uma arma. Fico impressionado como uma revista de circulação nacional como a Veja defenda abertamente não só a comercialização de armas como também uma corrida armamentista. Na ultima edição com a manchete “O arsenal do crime” defendem que a porcentagem de armas vendidas legalmente é irrisória e elas são menos potente do que as dos bandidos. Que pena, não é mesmo, que as armas são menos potentes? Imagine se fossem mais. Enfim, são fatos que ganham destaque e alarde sem a devida análise. Pra mim tudo aponta sinais de uma sociedade doente, que beira o insano, sendo fútil e burra. Sou vitima do crime, assaltado muitas vezes, digo que é IMPOSSIVEL evitar um ato violento. Quando deveríamos discutir como reduzir a violência nos debruçamos em questões como um possível aumento da violência se o bandido souber que o cidadão está desarmado. Isso está pior do que ver o Bush ganhar as eleições. É a completa irracionalidade, a luta do bem contra o mal.

Para você que acha que armamento ajuda no combate á criminalidade ou pelo menos vai garantir a sua segurança então trate de comprar aquele fuzil AK47, espalhe pistolas 9mm pela casa, instale uma bateria anti-aérea no quintal, distribua minas terrestres pelo gramado, construa um bunker debaixo da cozinha e trate de encomendar seu tanque de guerra na concessionária mais próxima. Você com certeza estará bem protegido, agora coitado daquele que cruzar o seu caminho.
Sim ou não, nada muda. Se você não anda armado, acredita na justiça e na educação como solução para os problemas da violência, então em nada mudará o resultado do referendo. É preciso ter vergonha na cara, seriedade. Os argumentos apresentados pela Veja soam mais como piada de mau gosto do que informação. Não somos uma Suíça, nem um Japão, nem Austrália e nem Inglaterra. De nada adianta nos compararmos com esses países desenvolvidos onde há educação, respeito ao ser humano, pouca desigualdade social e nível de renda elevado, é mais adequado nos compararmos a Ruanda, Congo, Angola, Papua Nova Guiné, Nigéria, Somália, Libéria, com todo respeito a esses países, e ainda assim os nossos índices de homicídios darão inveja a eles. Referendo por referendo deveriam votar a liberalização das drogas, cujo comercio ilegal é mais poderoso e violento do que o das armas. Deveriam votar a legalização do aborto, a proibição do fumo em locais públicos, a prisão perpétua para aqueles que dirigem alcoolizados e atropelam pessoas. Voto SIM, mas sei que dá na mesma que branco ou nulo.

Ruy Hirano, 20, estudante de administração.

terça-feira, outubro 11, 2005

HELIÓPOLIS E A USP

Na segunda-feira da semana passada o presidente da república, Luís Inácio Lula da Silva, visitou São Paulo, mais precisamente a comunidade de Heliópolis, maior favela de São Paulo e segundo da América Latina. Foi a primeira vez que um presidente visitou uma favela. Neste mesmo período ocorreu a greve na Universidade de São Paulo (USP) por mais verbas para as universidades estaduais (USP, Unicamp e Unesp).
O que faz um presidente visitar uma favela, principalmente após uma reunião na FIESP?
Acompanhado de dois potenciais candidatos ao governo do Estado de São Paulo nas próximas eleições, Marta Suplicy e o senador Aloizio Mercadante, ambos do PT, Lula novamente fez declarações que só cabem ao seu ego, afirmando ser um exemplo aos pobres. Como noticiou a mídia “Lula foi visitar um ponto de cultura, parceria da iniciativa privada com o Ministério da Cultura, que tem como objetivo levar cultura e formação para população de baixa renda. A idéia inicial do governo, como admitiu Lula, era construir uma casa de cultura em cada município, mas isso não foi feito. O que se fez foram 210 pontos em todo o país, que tem mais de 5.500 municípios”.

Enquanto isso, do outro lado da cidade a quilômetros de distância ocorria a greve. A greve da USP foi motivada pelo veto do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, ao projeto de lei que eleva o gasto obrigatório com educação no Estado de 30% para 31% de sua receita tributária e aumenta a proporção destinada às três universidades estaduais de 9,57% para 10% da arrecadação do ICMS. A greve pretendia pressionar deputados estaduais a derrubar o veto.
Juntas, USP, Unicamp e Unesp respondem por cerca de metade da produção científica nacional e formam boa parte dos melhores quadros do país. Suas atividades contribuem para o desenvolvimento do Estado e do Brasil. Fato indiscutível.
A elevação significaria cerca de R$ 470 milhões adicionais, que seriam divididos entre universidades, ensino tecnológico e básico. As universidades alegam que precisam dos recursos extras para manter as novas vagas abertas desde 2001, em um programa incentivado pelo próprio governo. Dizem que, sem elas, a qualidade dos cursos pode cair. No total, foram criadas 5.512 vagas, distribuídas entre USP (2.787), Unesp (1.825) e Unicamp (900). Mais de 1500 manifestantes realizaram ato na Assembléia Legislativa de São Paulo, ato que chegou a gerar confusão quando tentaram fechar uma avenida próxima.
As universidades, porém, não são as únicas preocupações do governo. O Estado coloca R$ 9,8 bilhões na Secretaria da Educação, dos quais R$ 1,3 bilhão (menos do que os R$ 2 bilhões destinados à USP) destina-se ao ensino médio. O que vai contra o consenso internacional de investimento prioritário na educação fundamental.

Heliópolis reúne mais de 120.000 pessoas em uma área equivalente a dois terços do parque Ibirapuera. Já foi sinônimo de uma das regiões mais perigosas do Brasil e do mundo. Atualmente a palavra laboratório é a palavra que melhor representa a comunidade. Eis alguns exemplos:
O maestro Sílvio Bacarelli comanda uma orquestra sinfônica que começa a revelar talentos como o contra-baixista Adriano Costa Chaves que foi convidado pessoalmente pelo maestro Zubin Meta para um estágio na Filarmônica de Israel, uma das mais prestigiadas do mundo.
A bailarina Ana Botafogo, uma das mais importantes bailarinas brasileira, ministrará um programa de balé para a população local.
O renomado arquiteto Ruy Ohtake convidado pela liderança da comunidade tem realizado feitos impressionantes. Primeiramente coloriu as casas da rua principal, gerando não só uma valorização do cuidado com a manutenção como também as cores tem despertado alegria, moral e vida. Saiu o cinza padrão, o preto e branco e entrou a cor. A comunidade passou a ver a si próprio com cores. Próximo passo já inaugurado é uma biblioteca no qual os 1.000 primeiros livros do acervo não foram doados, mas escolhidos por José Castilho Marques Neto, diretor da biblioteca Mário de Andrade e editor da Editora da Unesp. "Tudo aqui tem de ter dignidade. Não é porque é pobre que você vai fazer no olho. Não vamos fazer biblioteca com aqueles livros que as pessoas não querem mais", diz Ohtake. Ainda deverão ser construídos um cinema com capacidade de 120 lugares, um centro cultural e uma galeria de exposições, tudo projetado por Ruy, que ainda utilizou seu renome para atrair os recursos necessários. A biblioteca terá como financiador o banco Pan-Americano, já o centro cultural fica por conta da construtora Matec.
A idéia de Ohtake é que a exclusão social é acompanhada da exclusão territorial e arquitetônica. A favela, para ele, não pode mais ser considerada uma ocupação temporária que, por conta disso, é um amontoado de déficits. A infra-estrutura é atribuição do Estado, segundo ele, mas o resto deve ser uma tarefa de todos.
Em janeiro passado, uma prisão desativada foi convertida em biblioteca. O espaço é hoje freqüentado por 600 alunos, que recebem gratuitamente aulas de inglês e computação, além de reforço escolar.
Líderes locais ajudaram a formar policiais capazes de entender os segredos da favela. Criou-se um posto de policiamento comunitário. Um pastor, Carlos Altheman, coordenou as demandas por mais segurança. "As pessoas perderam o medo e passaram a denunciar mais", diz o pastor, autor da idéia de fazer da carceragem uma biblioteca.
Um exemplo impressionante é o caso do roubo de todos os computadores da escola municipal que funciona em Heliópolis. "Não sobrou nenhum", lembra o diretor da escola que cursa pós-gradução, saiu pela favela falando com as pessoas sobre a importância dos computadores para o aprendizado das crianças. Resultado: dois dias depois, todos os equipamentos estavam de volta. E devidamente instalados.
São muitos os exemplos que se destacam pela elevada produção com poucos recursos. Heliópolis ainda sofre com problemas sociais que não sumiram da noite pro dia. Não virou uma maravilha, mas boa parte desses programas que vem sendo realizados tem refletido em indicadores como a queda dos índices de homicídios, que nos últimos três anos teve queda de 60% e é um verdadeiro laboratório que emana cultura e educação para Lula, para a USP e para qualquer político e cidadão ver.

Após as grandes pressões o governador acabou cedendo e a USP deverá receber, de acordo com o texto enviado à Assembléia Legislativa de São Paulo, R$ 18,5 milhões a mais do que o normal. A Unicamp, R$ 20 milhões. USP, Unesp e Unicamp precisam gastar melhor o que o contribuinte paulista lhes dá, diminuindo suas ineficiências administrativas. Aumentar o repasse do ICMS, além de prejudicar outras despesas fundamentais do Estado, seria um desestímulo à otimização do gasto. Enquanto discute os recursos para 2006, a Unesp vem enfrentando problemas financeiros já neste ano. Comprometida com o pagamento do décimo terceiro a universidade promoveu um corte de 15% dos recursos destinados ao custeio (manutenção). Há redução, por exemplo, na conta de luz, fazendo com que lâmpadas sejam apagadas. Ao menor sinal de falta de recursos as universidades aqui analisadas tomam uma atitude altamente egocêntrica, corporativista e anti-democrática. Deixam os interesses da sociedade de lado em detrimento de mais recursos para si próprio. Empregam práticas administrativas ultrapassadas de grandes desperdícios. Sabem que esses recursos adicionais que pleiteiam terá de sair de áreas como segurança, infra-estrutura, cultura, habitação e saúde, e mesmo assim deixam o interesse particular pesar mais.

Faço aqui uso de trecho de texto publicado no dia 01/09/05 no O Estado de São Paulo sobre a greve na USP de autoria de Roberto Macedo, economista (USP), com doutorado pela Universidade Harvard: “O fato de os gastos públicos sociais não beneficiarem devidamente os mais pobres é agravado porque o sistema tributário que os financia se assenta principalmente em impostos indiretos, de caráter regressivo em relação à renda, pois os mais pobres gastam em bens e serviços tributados com impostos desse tipo uma proporção maior de seus rendimentos do que as classes de renda mais alta. A educação superior pública paulista é bem ilustrativa dessa distorção, pois é custeada com um imposto indireto, o ICMS, e dela se beneficiam com maior intensidade os estudantes originários dessas classes (renda mais alta)”.

Honestamente nunca fui para Heliópolis e nem faço parte da USP. Tudo que escrevi são informações retiradas das mais variadas mídias. Contudo, o que temos são fatos mais do que concretos que revelam o poder da vontade de mudar sem ficar esperando a boa vontade de Brasília e dos órgãos públicos. Revela que com seriedade as coisas funcionam, viram referência internacional. A valorização da cultura e da educação em Heliópolis tem apresentado resultados impressionantes mesmo no curto prazo. Se antes os jovens da favela tinham como referência somente o traficante e o jogador de futebol hoje já tem Adriano Costa Chaves. Temos um exemplo nacional a ser seguido não somente por aqueles em Brasília, mas que ensina a todas as pessoas como fazer um país sério de verdade. Heliópolis dá uma verdadeira aula para a USP, de como fazer muito com poucos recursos, de como pensar no próximo para o bem de todos.

Ruy Hirano, 20, estudante de administração.

segunda-feira, outubro 03, 2005

DÁ PRA VIVER SEM?

Você consegue imaginar uma vida sem televisão? Fazer aquele trabalho da faculdade sem internet? Passar o dia sem aquela música que toca no rádio? Enfim, atualmente a mídia orienta a nossa vida e tudo isso é um fenômeno recente, alguns anos atrás ninguém tinha o hábito de ficar horas em frente à televisão e ao computador na internet.

Pesquisa realizada em junho deste ano pelo instituto NOP World com 30 países buscou levantar informações sobre cultura e mídia. Foram detectados ricos e importantes dados. O Brasil aparece em oitavo lugar no ranking de horas frente à televisão. São 18,4 horas semanais bem acima da média mundial, de 16,6. No caso do rádio o Brasil aparece em segundo lugar nessa lista, os brasileiros passam 17,2 horas, mais do que as oitos horas da média dos países. Na internet somos o 9º colocado com 10,5 horas. É na leitura que apanhamos feio, somos o 4º país que menos tempo dispende com a leitura com somente 5,2 horas. Quase quatro vezes menos que o tempo gasto com a televisão. Vale destacar que o fenômeno que ocorre é mundial. A leitura perde espaço para a televisão e para a internet. Somente 17% dos países pesquisados dedicam menos do que 2 horas por dia com a televisão. Para piorar o conteúdo de leitura vem sofrendo cada vez mais um processo de massificação no sentido de que as pessoas estão lendo os mesmos livros ou conteúdo semelhante. No pouco tempo gasto com leitura geralmente é dedicada a livros-febre como Código Da Vinci e O Monge e o Executivo.


Perante o que foi apresentado até este ponto o que se tem a destacar é o quarto poder. A força da mídia, do seu poder de influência sobre a sociedade e seus fatos, o poder da informação como ela é apresentada. De acordo com o que foi mencionado acima não conseguimos viver mais sem ela, são mais de dois dias por semana gastas com as mídias.

No Brasil a mídia pode ser resumida em duas palavras: Rede Globo. Ela concentra a grande maioria dos telespectadores e receitas de mídia no Brasil. O jornal dos brasileiros é o Jornal Nacional, independente de opiniões. O poder exercido por essa empresa é monstruoso sendo considerada internacionalmente como uma das redes de informações mais poderosas do mundo. Dificilmente alguma denuncia em cadeia nacional na Rede Globo passa em branco sem alguma cabeça rolar. Não quero fazer deste texto um muro de fuzilamento da Rede Globo, que aliás tem seus méritos por profissionalismo e competência.

O que fica evidente quase que diariamente são os casos em que o quarto poder fica explícito. Na prisão de Flávio Maluf, filho de Paulo Maluf, o jornalista César Tralli da Globo conseguiu se “infiltrar”, disfarçado de policial, na equipe da Polícia Federal e com uma câmera na mão gravou tudo desde o momento em que foi algemado até o interior da sede da PF em São Paulo. A cena “exclusiva” de Flávio sendo algemado acabou virando símbolo da prisão dos Maluf’s. Dias atrás o apresentador da Band Gilberto Barros, o Leão, foi chamado para negociar um seqüestro ao vivo fazendo parte das exigências dos bandidos que fosse tudo gravado e transmitido como uma forma de garantir a sua integridade física. Na mídia impressa quem não se lembra dos artigos do norte-americano Larry Rohter, correspondente do jornal New York Times, sobre Lula? Tentaram até expulsar o jornalista do país, o que acabou sendo um absurdo maior ainda. E as denúncias na Veja e no O Globo contra Roberto Jefferson que acabaram gerando toda essa crise política que nos deparamos, como esquecer!?

Ainda me lembro claramente da denuncia realizada no Fantástico sobre falhas nos programas sociais como o Bolsa-Escola. Filmaram casos em três cidades onde pessoas que aparentemente estavam com uma condição econômica-social que não justificava o recebimento da bolsa de ajuda enquanto pessoas em pior situação estavam de mãos abanando. Com fitas em mão foram até o responsável maior, o ministro Patrus Ananias do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Primeiro deixaram o ministro à vontade falando do seu trabalho desenvolvido no ministério. Em seguida mostraram a fita com os casos explícitos de incompetência administrativa e colocaram o microfone na boca do ministro que estava no chão. Na tentativa de explicar o conjunto de erros Patrus Ananias perante a mídia nacional mostrava-se nervoso embora quisesse transmitir o contrário e suava (não a frio, literalmente mesmo). Pelo jeito saiu-se bem com a frase “as denúncias são uma das melhores formas para corrigirmos os erros e etc, bla-bla-bla” ainda permanece no cargo embora tenha sido vítima do quarto poder.

Sou crítico do abuso de poder não só da Rede Globo como das outras mídias. Quando fica claro que a edição conspira a favor de interesses é revoltante. De qualquer modo fica cada vez mais nítido a consciência da sociedade e a fiscalização contra essa manipulação da massa. Nisso a educação tem grande responsabilidade gerando pessoas que consigam pensar por si próprios, cada cidadão passa a agir como um fiscal.

É esse o poder do qual ninguém está imune e que consegue dar vida ou morte a qualquer coisa. Muito poder a serviço de interesses maiores. Não vejo e nem seria o caso de uma solução. Deve-se sim criar uma conscientização sobre o abuso de poder que não se limita somente ao quarto poder. Com relação às práticas excessivas made in Brasil temos muitos exemplos com os quais nos preocuparmos: violência (física e verbal), autoritarismo, uso de cargos públicos para práticas de atos obscenos, e por aí vai.

OBS - E nada nos surpreende mais neste país. Lula justamente a cara do seu partido, aquele que tantos anos foi o seu garoto propaganda não foi votar na eleição da presidência do PT. Quando minha amiga Paula me confessou que votaria em branco nas eleições (não a do PT, me refiro a eleições em geral) fiquei estarrecido e indignado, não se pode confundir corrupção com a democracia. E eis que o Lula deixa de votar naquele partido que ele mesmo ajudou a fundar. Definitivamente rasgaram aquilo que sempre defenderam. É o replay do “esqueçam o que escrevi, esqueçam o que falei”.

Ruy Hirano, 20, estudante de administração.