segunda-feira, maio 08, 2006

POR QUE A MOROSIDADE NO DESENVOLVIMENTO DA ENERGIA HÍDRICA?

ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES

Por que a morosidade no desenvolvimento da energia hídrica?
A crise do gás revelou uma triste realidade: o Brasil tornou-se refém da Bolívia. Com todo o respeito que essa nação merece, não tem cabimento o Brasil, com 188 milhões de habitantes e US$ 600 bilhões de PIB -e um país tão rico em energéticos- ficar dependente da Bolívia, que tem 9 milhões de habitantes e US$ 10 bilhões de PIB.
Tenho acompanhado o noticiário sobre essa crise e senti falta de análises que destaquem a imensa potencialidade do Brasil na área da hidroeletricidade. Poucas nações desfrutam do que possuímos. Temos quase 20% da água do mundo. É uma quantidade colossal.
Ademais, a geração de energia por meio de hidroelétricas tem externalidades preciosíssimas. Nos reservatórios, podem-se criar peixes em grande profusão. Depois de passada pelas turbinas, a água pode ser utilizada para irrigar grandes áreas de produção agrícola. Em todo o processo, essa água produz energia sem poluir e sem causar danos ao ambiente. Ao contrário, a fauna e a flora das regiões das usinas podem ser reconstruídas e melhoradas depois de eventuais desequilíbrios momentâneos causados pela construção do projeto.
O que não se justifica é a generalização improcedente alegada por certos "experts" do meio ambiente segundo a qual a exploração do nosso potencial hidroenergético é sinônimo de devastação da natureza. Com isso, dezenas de grandes projetos continuam na gaveta enquanto nos ajoelhamos aos pés da Bolívia para conseguir um aumento de preço tolerável do gás natural.
E sabe-se lá o que vai acontecer daqui para a frente. Os governantes bolivianos já falam em uma estonteante elevação de preço da ordem de 45%, passando dos atuais R$ 5,50 para R$ 8 o milhar de metro cúbico. É uma majoração insustentável para os consumidores individuais e para as indústrias, lembrando-se que muitas delas, há pouco tempo, foram levadas a converter seus equipamentos para usar o gás. Há setores que têm toda a produção atrelada a esse combustível, e a reconversão dos equipamentos para o óleo combustível ou para outro energético implica despesas intoleráveis para continuar competindo.
Que o ocorrido sirva de lição. Exploremos primeiro o que é nosso antes de buscar o que é dos outros. Confiemos em nossas instituições antes de assinar contratos com governos populistas, que, aos poucos, tomam conta da América Latina. Usemos o nosso bom senso antes de entrar em aventuras perigosas.
Populismo é a prática de manipular as emoções e conquistar o voto imediato dos eleitores. Desenvolvimento é o exercício equilibrado de estratégias voltadas para o futuro. São coisas muito diferentes.
Das lições da crise, só podemos apelar para que se use o bom senso, afastando os impulsos ideológicos e eleitoreiros que asseguram vitórias instantâneas e condenam as gerações do futuro.

DIALÉTICA DA NATUREZA

Preconceitos cercam a "árvore de direita"
RICARDO BONALUME NETO

Os coalas ficariam indignados se soubessem o que a esquerda brasileira está falando do eucalipto, cujas folhas são sua principal fonte de alimentação. Os simpáticos bichinhos peludos australianos talvez até fundassem uma organização não-governamental para gritar estridentemente suas opiniões. Talvez optassem pelo vandalismo, como certas ONGs.
Acreditem, coalas: a bela e altaneira árvore nativa da Austrália foi tachada de "árvore de direita", e suas florestas no Brasil foram apodadas de "desertos verdes". Essa curiosa visão do universo arbóreo foi a justificativa para que mulheres alucinadas da ONG Via Campesina vandalizassem em março instalações da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro (RS).
"Somos contra os desertos verdes, as enormes plantações de eucalipto, acácia e pinus para celulose, que cobrem milhares de hectares no Brasil e na América Latina. Onde o deserto verde avança, a biodiversidade é destruída, os solos se deterioram, os rios secam, sem contar a enorme poluição gerada pelas fábricas de celulose que contaminam o ar, as águas e ameaçam a saúde humana", diz o manifesto das senhoras.
Até que ponto elas têm razão -e essa árvore, que se acredita ter sido primeiro introduzida no Brasil em 1868, é de fato um grotesco símbolo do "neoliberalismo", o nome novo que a esquerda dá ao velho capitalismo?
O eucalipto, que foi por um tempo vilão ambiental dos verdes menos esclarecidos, estaria voltando a ser malvado e adentrando o panteão maldito da esquerda, onde estão Coca-Cola, Big Mac e soja transgênica?
"Deserto verde é duplamente errado. Deserto é onde não chove. Se é verde, não pode ser deserto", diz, com a paciência típica dos cientistas que vivem às voltas com mitos, o pesquisador Walter de Paula Lima, um dos maiores conhecedores do eucalipto na comunidade científica brasileira.
Ele começou a estudar essa árvore já em 1972, quando começou sua carreira acadêmica como auxiliar de ensino no então Departamento de Silvicultura da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" da Universidade de São Paulo), em Piracicaba -a mais prestigiosa escola brasileira de agronomia.
Walter Lima é especialista em hidrologia florestal, o uso de água pelas florestas. Um mito acalentado pelos verdes e agora pelos vermelhos pouco esclarecidos é a voracidade do eucalipto por água, cujas plantações seriam capazes de secar rios, lagos, mananciais.
Havia quem dizia que uma árvore de eucalipto usava 360 litros de água por dia. Um absurdo, que foi depois modificado para 30 litros na propaganda antieucalipto. O valor real máximo é 15 litros, diz o professor da Esalq; e só em certas épocas do crescimento, e certas épocas do ano, e para árvores plantadas no padrão tradicional de reflorestamento, uma para cada seis metros quadrados.
Há árvores nativas brasileiras com consumo parecido, dependendo também das circunstâncias. O cientista acha estranho criticarem o eucalipto por afetar a biodiversidade. Qualquer plantação agrícola -de soja ou de café de um latifundiário do agrobusiness, um roçadinho de feijão ou mandioca de agricultura de subsistência- é um ataque à variedade natural de espécies vegetais que existiam no terreno.
A única alternativa a isso seria banir a agricultura da face da Terra -mas, para isso, a população do planeta teria de diminuir de 6 bilhões para no máximo uns 50 ou 100 milhões, se tanto, catando frutinhas no mato "biodiverso".
Mas, dizem os nacionalistas silvícolas, por que não usar árvores nativas em vez do neoliberal eucalipto? Charles Darwin e sua teoria da evolução explicam.
As plantas , árvores e arbustos brasileiros nativos coevoluíram com suas pragas, faz milhões de anos. Criar uma floresta só de embaúba, uma bela árvore de crescimento rápido, seria criar um belo repasto para as pragas locais -a não ser que fossem neoliberalmente enxarcadas de inseticidas.
O eucalipto, ao ser transplantado para cá, poderia ter virado fast food das pragas ou ser imune a elas. Ganhou a segunda opção. A árvore se deu bem, cresce rápido e virou estrela de exportação.
Mais irônico ainda: os tais "eucalipto, acácia e pinus para celulose" criticados pelas neovândalas cumprem seu papel de preservar as matas nativas de virarem papel. Quem vai querer transformar a mata atlântica em papel, se é muito melhor fazer isso com essas árvores de crescimento rápido?

terça-feira, março 21, 2006

RITUAL DOS BESTAS-FERAS

Recomeço das aulas nas faculdades e universidades e todo ano é a mesma coisa, pessoas carecas, os bichos e bichetes fazendo “pedágio” nos semáforos nas esquinas da cidade pedindo “uns trocado” para depois os veteranos utilizarem como cerveja.
Em pleno ano de 2006, século 21, tempos de modernidades temos neste país medieval esse ritual de "iniciação". O ritual daqueles que consideramos os mais capacitados, as pessoas com mais conhecimento na sociedade. É de certa forma um ritual dos mais privilegiados, dado que alguns indicadores revelam que 50% da população é analfabeta funcional neste país tupiniquim.
Tal rito é conhecido de todos: o trote.
Incrivelmente eu passei algumas horas tentando encontrar alguma finalidade pra tal evento, mas não consegui encontrar. Em um jornal recente foi publicado uma foto de um estudante sujo de tinta e lama, com uma melancia na cabeça, dançando sobre uma garrafa. Outra estudante declarou: "Eles jogaram ovos e tintas. Estou me sentindo suja, mas feliz como nunca".
No bom filme “uma amizade sem fronteiras” com o ator Omar Sharif, há o destaque sutil de que o lixo é um indicador se o país é desenvolvido ou não. Se tiver lixeiras limpas e pouca sujeira é porque o país é rico e organizado, poucas lixeiras e muita sujeira é sinal de que o país é subdesenvolvido.
Bem como no filme de Omar Sharif acredito que é possivel analisar o sistema educacional, no caso a falencia do sistema educacional brasileiro. Quando uma pessoa obriga e a outra se sujeita ao ridículo de se sujar, pendurar coisas na cabeça e ainda ficar feliz com isso algo não anda bem. Pelo menos nunca vi um país avançado e moderno com tamanho nível de civilidade. Onde está a educação nisso tudo? Índios que nunca freqüentaram uma aula de maternal ou jardim de infância são capazes de apresentar um nível educacional de respeito muito maior.

A inspiração para escrever este texto foi um artigo do jornalista Vinicius Torres Freire, o qual me sinto na obrigação de publicar integralmente, pois expressa perfeitamente nos mínimos detalhes muitos dos meus sentimentos em relação a este assunto:
“O Ritual brasileiro do trote
SÃO PAULO - Estamos na época dos trotes em calouros de universidade, um ritual coletivo tão brasileirinho quanto o Carnaval e a carnavalização da Justiça nas CPIs.
O trote é medieval como a universidade e quase deixou de existir em lugar civilizado. No Brasil, é um meio de reafirmar, na passagem para a vida adulta, que o jovem estudante pertence mesmo a uma sociedade autoritária, violenta e de privilégio. Submissão e humilhação são a essência do rito, mas expressivas mesmo são suas formas: o calouro é muita vez obrigado a assumir o papel de pobre brasileiro. A humilhação também faz parte da iniciação universitária americana, embora nesse caso o rito marque a entrada na irmandade, sinal de exclusivismo e vivência de segredos de uma elite que se ressente da falta de aristocracia e de mistérios em sua sociedade ideologicamente igualitária e laica. De início, como em muito ritual, o jovem é descaracterizado e marcado fisicamente. É sujo de tinta, de lama, até de porcarias excrementícias; raspam sua cabeça. Ao mesmo tempo que apaga simbolicamente sua identidade, a pichação do calouro lhe confere a marca do privilegiado universitário (são poucos e têm cadeia especial!). Pais e estudantes se orgulham da marca suja e da violência.Na mímica da humilhação dos servos, o jovem é colocado em fila, amarrado ou de mãos dadas, e conduzido pelas ruas, como se fazia com escravos, como a polícia faz com favelados. É jogado em fontes imundas, como garotos de rua. Deve esmolar para seu veterano-cafetão. Na aula-trote, o veterano vinga-se do professor autoritário ao encenar sua raiva e descarregá-la no calouro, com o que a estupidez se reproduz.
Como universidade até outro dia era privilégio oligárquico, o trote nasceu na oligarquia, imitada pelos arrivistas. Da oligarquia veio ainda o ritual universitário do assalto a restaurantes ("pindura"), rito de iniciação pelo qual certa elite indica que se exclui da ordem legal dos comuns.
De vez em quando, ferem, aleijam ou matam um garoto na cretinice do trote. Ninguém é punido. Os oligarcas velhos relevam: "acidente".Não, não: é tudo de propósito.”

Quando da morte da estudante, branca, loira e rica, Liana Friedenbach de 16 anos junto do namorado Felipe Silva Caffé de 19 anos em novembro de 2003 pelo “monstro” Xampinha de 16 anos, foi feita uma pesquisa onde 84% dos entrevistados defendiam a redução da maioridade penal. A idade ideal seria 15 anos e 62% defendiam que a redução deveria valer para todos os crimes. A repercussão do crime gerou até uma cogitação popular para a condenação de pena de morte, ou a legalização da pena de morte ou de penas mais severas.
Pois bem, 23 de fevereiro de 1999 morre Edison Tsung Chi Hsueh aos 22 anos na piscina da Faculdade de Medicina da USP, a história todos conhecem, aqueles que participaram do trote sabem certamente quem matou, fato é que no final da história o processo foi arquivado “por falta de justa causa”. Para os advogados da defesa “o que se entendeu é que não foi um homicídio, mas um acidente”. Quem sublinhou o acidente foi eu mesmo, o autor. Acidente repito, acidente. Imaginem calouros fazendo “pedágios” pelos semáforos da cidade quando um bandido armado acidentalmente dispara sua arma, até sem intenção, mas mata uma garota branca e loira, ou um rapaz de uma “tradicional” família como alguns dizem. Prefiro nem comentar, basta olhar a história.
Voltando para o caso do chinês-calouro afogado eis um depoimento da mãe do rapaz em um jornal recentemente: “Depois do que aconteceu, ficamos alguns anos doentes, forçando o coração para esquecer. Meu marido ficou quase um ano sem ter vontade nem de comer. O consolo depois que meu filho morreu é a esperança de que isso não aconteça de novo. Quando os estudantes entram na faculdade, o aluno antigo deve ir almoçar, passar filmes, ensinar o caminho para o novato.”
Esta é a esperança da mãe do estudante vítima de um trote, mas a realidade como sempre tende a ser mais cruel. Notícia recente: “O calouro de administração de empresas Tiago Rosa Careta, 21, teve a cabeça e o pescoço queimados por um produto químico lançado sobre ele no primeiro dia de aula da universidade, que é a maior particular da região de Franca. O produto foi jogado na cabeça do calouro e queimou o cabelo, o couro cabeludo e parte do pescoço, além de manchar alguns dedos. A mãe do calouro, a funcionária pública Maria Luiza Careta, 41, disse estar "horrorizada": "Poderiam ter cegado ele.”“.
Obviamente não são todos os trotes que acabam em tragédia, contudo todos os trotes incluem repressão, violência e agressão ainda que não física. Alguns alegam que o trote é um grande evento de integração e confraternização, mas não é parte da cultura brasileira as confraternizações familiares, empresariais e entre amigos serem realizadas com ovadas, gritos e muita estupidez. Pelo menos quando eu vou comemorar algo com alguém, isso não ocorre como se estivéssemos no tempo medieval.

Eu pessoalmente não consigo entender ou encontrar uma lógica para tanta burrice, ainda que eu me considero uma das únicas vozes contra o trote dentre as pessoas que conheço. A vida é banalizada e vale cada vez menos. As pessoas freqüentam mais de 10 anos nas “melhores” escolas e não conseguem aprender o que deveria ser a lição mais básica, que é o respeito ao ser humano. Existem coisas como o trote e a relação entre os estudantes de nível universitário que definitivamente, pelo menos para mim, demonstram se um país é ou não desenvolvido. Não adianta o país mudar a política monetária, ser mais ou menos ortodoxo, reduzir ou aumentar a taxa selic.
Independente da política econômica que rege o país e que tende a ser um dos principais temas da eleição deste ano como poderemos ser desenvolvidos reproduzindo atos estúpidos e “bestas-feras” como descritos acima? Atos irresponsáveis justamente daqueles mais educados de uma nação de analfabetos. Aqueles que deveriam dar o exemplo e liderar o país ao desenvolvimento se divertem com tamanha estupidez de um modo irreproduzível por nenhum asno no mundo.

No Brasil tem coisas que funcionam na base do “acidente”, “acontece, fazer o quê?”. Na coluna do jornalista Clóvis Rossi, apresentada no dia 21 de fevereiro, com o título de “A animalização do país”, talvez traga respostas (ou mais dúvidas) para o absurdo do trote. Disponibilizei o texto no blog (http://ruyhirano.blogspot.com).


Ruy Hirano, 20, estudante de administração.

quarta-feira, março 15, 2006

A ANIMALIZAÇÃO DO PAÍS

SÃO PAULO - No sóbrio relato de Elvira Lobato, lia-se ontem, nesta Folha, a história de um Honda Fit abandonado em uma rua do Rio de Janeiro "com uma cabeça sobre o capô e os corpos de dois jovens negros, retalhados a machadadas, no interior do veículo".
Prossegue o relato: "A reação dos moradores foi tão chocante como as brutais mutilações. Vários moradores buscaram seus celulares para fotografar os corpos, e os mais jovens riram e fizeram troça dos corpos. Os próprios moradores descreveram a algazarra à reportagem. "Eu gritei: Está nervoso e perdeu a cabeça?", relatou um motoboy que pediu para não ser identificado, enquanto um estudante admitiu ter rido e feito piada ao ver que o coração e os intestinos de uma das vítimas tinham sido retirados e expostos por seus algozes.
"Ri porque é engraçado ver um corpo todo picado", respondeu o estudante ao ser questionado sobre a causa de sua reação". O crime em si já seria uma clara evidência de que bestas-feras estão à solta e à vontade no país. Mas ainda daria, num esforço de auto-engano, para dizer que crimes bestiais ocorrem em todas as partes do mundo. Mas a reação dos moradores prova que não se trata de uma perversidade circunstancial e circunscrita. Não. O país perde, crescentemente, o respeito à vida, a valores básicos, ao convívio civilizado. O anormal, o patológico, o bestial, vira normal. "É engraçado", como diz o estudante.
O processo de animalização contamina a sociedade, a partir do topo, quando o presidente da República diz que seu partido está desmoralizado, mas vai à festa dos desmoralizados e confraterniza com trambiqueiros confessos. Também deve achar "engraçado".
Alguma surpresa quando é declarado inocente o comandante do massacre de 111 pessoas, sob aplausos de parcela da sociedade para quem presos não têm direito à vida? São bestas-feras, e deve ser "engraçado" matá-los. É a lei da selva, no asfalto.